..."David Lopes, um serrano de gema oriundo da aldeia de Lomba do Barco em Pampilhosa da Serra, numa entrevista de vida, sentida e carregada de emoção. Regionalista convicto e apaixonado pela sua terra e pelas suas gentes"...

Serras Online – Dê-nos uma breve descrição das suas origens, do seu percurso de vida pessoal.

Nasci em Lomba do Barco, Aldeia da Freguesia e Concelho de Pampilhosa da Serra, aldeia de gente humilde como todas as aldeias do Concelho.

Aos 7 anos fui para a Escola em Maria Gomes, (Lomba do Barco não tinha escola).

Depois de sair da escola comecei a pastorear um pequeno rebanho de cabras e ovelhas junto com o meu Irmão Benjamim (mais velho 5 anos).

Terminado a 3ª classe, o Professor Joaquim Pires (da Travessa) não podia lecionar a 4ª classe, fui para a escola do Machio, percurso com cerca de uma hora e meia para cada lado, sozinho. Foi duro, muito duro, pois, no final, a Professora Irene não me levou a exame. Ficou sem o aluno, não voltei lá.

Mais tarde, já em Lisboa, com 15 anos fui para uma Professora, D. Maria, no Conde Barão, que lecionava para adultos no horário das 21 às 23.30 e, em 3 meses levou-me a fazer a 4ª classe. Mais tarde, com cerca de 30 anos estudei Inglês no Instituto Britânico em Lisboa que necessitava para a minha vida comercial.

Aos 14 anos rumei a Lisboa, trabalhar numa Mercearia e derivados na zona do Carmo, marçano, carregava cabazes com as encomendas das clientes a entregar principalmente nas zonas do Chiado e Rossio, sextos andares (sem elevador), foi duro e, para mais, todos os dias de 2ª a Domingo (inclusive) ia para a Praça da Ribeira com os 2 patrões, numa carrinha daquele tempo (1952), dentro da caixa fechada.  Tinha que levantar pelas 6,30h da manhã. 

Quando fiz o exame da 4ª classe, (como digo atrás), com 15 anos, fui para um comércio no Barreiro pertença de um primo meu.  Aqui a vida passou a ser muito diferente, muito mais evoluída, principalmente a nível social e humana. O Barreiro ficou marcado na minha vida, ainda hoje lá tenho amigos dessa época e até, um ex-colega natural de Pedrogão Pequeno.

Mas também este trabalho não era o que eu ambicionava para futuro.

Aos 22 anos surgiu uma oportunidade para vendedor (vulgo Agente Comercial), como representante em Lisboa de uma fábrica sediada em Espinho. Era o que eu ambicionava, para o que eu pensava ter vocação o que, felizmente, se confirmou e, um ano depois fui convidado para ir à Ilha da Madeira já na qualidade de Responsável Comercial. 

Felizmente correu muito bem. Como eu era comercial independente, fui adquirindo outras representações principalmente na área de artigos para a Casa e Lar.

Em 1966 surgiu nova oportunidade que foi entrar no mundo dos brinquedos. Fui a uma feira de brinquedos em Valência, Espanha, firmei desde logo compromissos verbais com fabricantes de brinquedos, (Espanha era, à época o maior produtor de Brinquedos da Europa).

Introduzi em Portugal marcas ainda hoje conhecidas mundialmente, tal como o meu nome ainda hoje é conhecido em todo o mundo dos brinquedos embora já tenha delegado no meu filho toda essa dinâmica.

Marquei uma posição muito positiva no relacionamento com os Fabricantes e outras estruturas ao ponto de ter sido reconhecido pela Câmara de Comércio de Alicante como o melhor comercial do sector, no estrangeiro.

Também fui durante muitos anos o único comercial do sector de brinquedos reconhecido pela Embaixada de Espanha em Portugal (Oficina/Secção Comercial).

Em 1996, já com o meu filho a iniciar a actividade diversificamos para importadores e distribuidores em Portugal das marcas MAISTO  e BURAGO.

 

SO – Como regionalista serrano conte-nos resumidamente o seu percurso no regionalismo Pampilhosense.

No princípio dos anos 1960 relacionei-me com o então correspondente de “Correio da Serra” de nome Fernando Costa, natural do Colmeal/Gois.

 Passei a assinar este Jornal dirigido pelo estimado Padre Borges com quem tive o privilégio de conviver.

Com o meu irmão Raul Lopes e o amigo João Mendes (já falecidos) empenhamo-nos pelos melhoramentos indispensáveis para a nossa Aldeia tais como: a estrada com ligação ao alto de Maria Gomes onde já passava um estradão desde Pampilhosa até Amoreira. A ligação à Lomba do Barco ocorreu em 1968.

Em 1973 dirigimo-nos pessoalmente aos Serviços Florestais de Arganil, na pessoa do seu Director, Engº Lino Teixeira pedindo estradões florestais entre Vale Serrão/Lomba do Barco/Maria Gomes e, Lomba do Barco margem direita do Rio Zêzere frente a Álvaro.

Em Outubro de 1973 entraram as máquinas a romper os ditos estradões que ainda hoje existem. Com esta acção viemos a saber que também a Liga de Vale Serrão, na pessoa do Sr. José Bernardo já tinham feito o mesmo pedido aos Serviços Florestais de Arganil, mas por escrito.

Passei a relacionar-me com Sr. José Bernardo, fizemos amizade que perdurou até que ele nos deixou.  Presto aqui, mais uma vez a minha homenagens ao grande regionalista, grande humanista e amigo com o qual tive o privilégio de conviver e, com quem aprendi muito.

 

SO – Conhecemos a sua paixão por uma obra que foi concretizada graças á tenacidade e persistência de uns quantos pampilhosenses. Estamos a falar da construção da Ponte de Álvaro. Quem foram estes “heróis” e quais as maiores dificuldades que sentiram para que o projecto se concretizasse?

A minha já referida ligação ao “grande regionalista Sr. José Bernardo” foi muito importante para o pensamento, o sonho que terminou em feliz realidade, a construção da Ponte de Álvaro.

Os estradões já referidos foram fundamentais, foram o ponto de partida. Dificuldades? foram muitas, mas com a vontade de muito boa gente, o objectivo foi conseguido. Recordo uma frase que o José Bernardo aplicava continuamente e que ficou gravada para sempre “A Ponte de Álvaro está condenada a fazer-se”.  

Quem foram os heróis? Toda a gente que acreditou no projecto, todas as pessoas de todas as povoações, todos os autarcas da época, toda a imprensa Regional, todas as instituições a quem nos dirigimos pedindo apoio, naturalmente que os membros da então formada comissão foram incansáveis, cada um dentro das suas próprias capacidades e possibilidades, mas, seria injusto destacar uns mais do que outros.

Como é bem sabido e conhecido, a comissão iniciou com 16 elementos de 4 povoações: Álvaro/Gaspalha, Lomba do Barco, Maria Gomes e Vale Serrão. Os nomes constam em vários registos e actas. Mais tarde foram aderindo outras povoações a saber: Machios de Cima e de Baixo, Trinhão, Vale de Pereiras e Povos da Soalheira.

Muito pode ser dito sobre o tema da Ponte de Álvaro, mas, para mim, o principal herói foi o então Presidente da Junta Autónoma de Estradas, Brigadeiro Almeida Freire, natural de Colmeal/Góis.

Para que conste: Os nossos contactos com altos responsáveis governamentais da época deram sempre o ”nega”.

Quando o Brigadeiro Almeida Freire chegou à Junta Autónoma de Estradas, analisou o dossier que a Comissão tinha enviado, decidiu ir pessoalmente ver o local, foi incógnito, nada nem ninguém soube quem ele era, ao que ia.

Após isto, marcou uma reunião para nos ouvir, conhecer as razões das nossas pretensões, dizendo-nos que não se ia esquecer da pretensa ponte até porque o seu condutor se chamava Álvaro. Coisas bonitas que ouvimos.

Este grande Senhor tomou a decisão contra o parecer do então Ministro das Obras Públicas, ou seja, assumiu ele próprio. Teve ainda a dignidade de não aceitar que a ponte fosse com “o nome dele”, mas que devia ser Ponte de Álvaro.

                                                                                                                                                   

SO – Sabemos que acompanha o regionalismo com bastante atenção. Como vê o regionalismo actual? E que prespectivas tem o seu futuro, no seu entender?

É muito difícil formular opinião sobre tão delicado tema. Todos sabemos que têm sido formuladas opiniões diversas, mas, qual a mais sensata e realista.

Eu penso que o Regionalismo continua a ter um papel importante principalmente no nosso Concelho do interior mas falta como cativar os jovens.

A meu ver é fundamental encontrar assuntos de interesse comum que possam motivar os jovens.

Recordo, por exemplo, depois da calamidade dos incêndios de 2017, verificaram-se aderências de muita gente solidária, principalmente jovens que colaboraram em vários sentidos, com apoios diversos.

Será que esses jovens estarão motivados para continuarem a colaborar, para pugnarem por melhores condições do território do interior desertificado?  

Alguém já procurou manter esses jovens motivados para continuarem a lutar pelas necessidades do interior?

Actualmente, com as novas tecnologias de comunicações, internet, redes sociais, não será difícil organizarem-se em movimentos de apoios diversos. Claro que isto já não é para mim, a idade não permite.

 

SO – Como pessoa mais experiente e com bastante experiência de campo que conselhos gostaria de transmitir às novas gerações de regionalistas que os ajudem a levar o barco a bom porto?

O meu conselho é praticamente o que já disse antes. Sabemos que os jovens precisam de ter motivos para lutar, para exteriorizar, e existem muitos descendentes de Pampilhosa da Serra. 

Pois bem, tomem a iniciativa de se organizarem para pugnar pelas melhorias que gostariam de ver e ter em Pampilhosa da Serra.

Por exemplo, certamente gostariam de ter uma melhor estrada para lá chegar.

Sabemos que o Presidente José Brito tem feito tudo que lhe é possível para o conseguir, mas, infelizmente não se vê a luz ao fundo do túnel.

Os jovens têm aqui um motivo concreto para se organizarem de apoio pois, todos, nunca somos demais.

 

 SO – Para terminar, como vê a evolução do concelho da Pampilhosa da Serra, em termos futuros?

Eu quero ser optimista, eu sou optimista por natureza, mas infelizmente, penso que o problema não depende só da boa vontade dos nossos autarcas que tudo fazem pelo melhor.

Enquanto não for definida pelo poder central uma estratégia global para o desenvolvimento e desertificação do interior, é difícil os autarcas locais, neste caso, os do nosso Concelho, Pampilhosa da Serra, poderem alterar o rumo que se está a verificar não só em Pampilhosa da Serra, mas em todo o interior.

 

 

 

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