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Neste trabalho de António Amaro Rosa mostramos a Amoreira, freguesia da Portela do Fojo, e fazemos uma viagem inestimável pela história património e etnografia da aldeia.
Toponímia
É uma das primeiras perguntas que nos surge à ideia sempre que ouvimos falar numa terra: a quem ou a quê deve a aldeia o seu nome?
A resposta a esta questão não se nos afigura fácil de descortinar. De facto, desde logo quatro hipóteses se levantam. Vamos percorrê-las no intuito de chegarmos a alguma conclusão.
A primeira hipótese que se coloca é a possibilidade desta aldeia dever o seu nome a uma espécie botânica. E aqui desde logo se abrem duas sub-hipóteses: ou o seu nome deriva da conhecida árvore amoreira ou, ao invés, do fruto da roseira-brava (ou silva, como é vulgarmente conhecida), a apetitosa amora. Contra este tipo de argumento encontramos a voz de Moisés Espírito Santo, o qual entende que “regra geral, os fitopónimos [nomes de lugares relacionados com a flora] só existem nos dicionários. Os criadores de topónimos, que são os rurais, não “baptizam” os seus lugares com nomes de plantas nem referenciam os seus lugares de passagem, de estada ou de trabalho a partir das árvores que aí existam.” Perante esta posição, avancemos para uma segunda hipótese.
No campo da ornitologia (estudo das aves), existe um pássaro da família dos Silviídeos ao qual é atribuído o nome de Amoreira, embora também seja conhecido por felosa-real, flecha, papa-amoras, entre outros. Ora, esta hipótese também não nos parece muito válida, pois não demos conta de que na povoação exista esta ave ou que, ainda que ela exista, lhe seja atribuída tal designação.
Outra hipótese que se levanta poderá ser a de que a palavra Amoreira consiste numa derivação do português arcaico moureira, pretendendo assim significar uma “terra junto à fronteira com o território dos mouros”. Esta hipótese, embora atraente em termos históricos, também não se nos afigura muito verdadeira, pois ainda não está suficientemente demonstrada a permanência dos mouros ou sarracenos por estas paragens, embora não seja de excluir totalmente que os mesmos tenham calcorreado estas serras.
O foral manuelino de Álvares, outorgado em 4 de Maio de 1514, pelo então rei D. Manuel I de Portugal, também não nos elucida quanto à razão de ser deste topónimo. Com efeito, após a sua leitura constatamos que o mesmo contém duas menções à aldeia em análise: “…courelas de terra naldea de moreira…” e “…Joham louremço da moreira…”, mas pouco ou nada nos ajudam quanto à razão de ser do seu nome de “baptismo”.
Talvez pareça forçado, mas cremos que o nome desta aldeia se deve, provavelmente, à primeira família ou ao primeiro habitante que por este lugar se instalou. Seria, pois, um Moreira que, com o passar dos anos, se confundiu com o lugar (a Moreira > Amoreira). Contra esta corrente de opinião, encontramos novamente o parecer de Moisés Espírito Santo: “costumam também os filólogos e historiadores atribuir a origem do nome das povoações aos dos antigos proprietários. Segundo essa lógica, que é sobretudo uma ideologia, os senhores e os príncipes “deram os seu nomes” às localidades, como quem regista um invento ou um padrinho procede ao baptismo de um recém-nascido: até à chegada do invasor, a terra era anónima ou as pessoas não falavam.”
Deixamos à livre opinião do Leitor a hipótese que considere mais válida.
Geografia
A aldeia de Amoreira é uma das povoações que compõe a Freguesia de Portela do Fojo (freguesia rural de 2ª ordem), embora seja frequentemente confundida com esta pelos viajantes e mesmo por alguns conterrâneos. Relativamente à sede da freguesia, a Amoreira Cimeira e a Amoreira Fundeira distam, respectivamente 360 m e 1.676 m. Pertence, desde 1855, ao Concelho de Pampilhosa da Serra (concelho rural de 3ª ordem), do qual dista sensivelmente 20 Km, e ao Distrito Administrativo de Coimbra desde 1835 (ano da sua criação). Faz parte da Província da Beira Baixa.
Eclesiasticamente, a Amoreira pertence à Paróquia de Nossa Senhora da Paz da Portela do Fojo, ao Arciprestado de Pampilhosa da Serra, à Região Pastoral Nordeste e à Diocese de Coimbra. Judicialmente faz parte da Comarca de Pampilhosa da Serra, inserida na Relação e Distrito Judicial de Coimbra.
A povoação de Amoreira é composta por vários lugares, a saber: Algar, Amoreira Cimeira, Amoreira Fundeira, Amoreirinha, Cabeço, Cimo da Fonte,
Corga de Oiro, Corga do Rossaio, Correguinha, Costa, Enxaminhos, Ervideira, Ervideiras, Favaca, Fonte de Baixo, Fonte de Cima, Fonte Maré, Fundo do Vale, Horta Cimeira, Lagar, Outeiro, Quartão do Moinho, Ribeiro d’Além, Ribeiro de Indioso, Santa Bárbara, Selada, Souto Cimeiro, Travessa, Vale da Figueira, Vale da Fonte, Vale da Gata, Vale da Raposa e Vale de Madeiro.
Quanto aos residentes permanentes, não temos dados concretos, mas certamente ultrapassam as duas centenas.
A “Amoreira Cimeira é formada por 141 habitações, sendo 11 rústicas, 115 reconstruídas e 15 novas, enquanto que em Amoreira Fundeira há 94 casas de habitação, das quais 15 são rústicas, 65 reconstruídas e 14 novas.”
Topografia
Dada a sua extensão e ao facto de se encontrar em terreno montanhoso, a aldeia de Amoreira e os pequenos lugares que a compõem em seu redor estão situados a diversos níveis de altitude. Assim, enquanto o Algar fica-se, sensivelmente, pelos 423 m acima do nível do mar, já o Vale da Gata atinge quase aos 583 m.
A Amoreira Cimeira posiciona-se à latitude: 39º 59' 16" e à longitude: 8º 3' 33", ao passo que a Amoreira Fundeira posiciona-se à latitude: 39º 59' 23" e à longitude: 8º 4' 49".
A aldeia, uma das maiores povoações de todo o concelho da Pampilhosa da Serra, confronta a Norte e a Oeste com o Rio Unhais, separando-a do concelho de Góis; a fronteira Sul é delimitada pelo rio Zêzere, separando-a do vizinho concelho de Oleiros; por fim, a Este confronta com as imediações a aldeia do Trinhão e com a freguesia do Machio.
Amoreira está situada na margem direita do Zêzere. Tem ligação à Estrada Nacional nº 344, permitindo-lhe aceder sem grandes dificuldades quer à sede do seu concelho, quer à sede do vizinho concelho de Pedrógão Grande.
No entanto, encontra-se numa região montanhosa, de solo xistoso e argiloso o qual não é o mais adequado à agricultura.
Repetindo o que já dissemos em edições anteriores, as espécies vegetais mais abundantes nesta área são a Carqueja, o Castanheiro, o Eucalipto, o Feto, a Lantisca, o Medronheiro, o Pinheiro-Bravo, o Tojo, o Trovisco e a Urze, entre outras. Entre as espécies animais encontramos a Abelha, a Aranha, a Barata, a Borboleta, o Caracol, o Coelho-Bravo, a Cobra, o Corvo, o Cuco, a Formiga, o Gafanhoto, o Grilo, o Javali, a Lavandeira, a Lesma, a Louva-a-Deus, a Osga, o Ouriço-Cacheiro, o Melro, o Morcego, a Mosca, o Pardal, a Perdiz, a Rã, a Raposa, o Rato, a Sardanisca e a Vespa, entre outras. Nos rios que correm a Norte e a Sul encontramos ainda o Achigã, o Barbo, a Boga, a Carpa, a Enguia e a Truta.
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História
Um dos primeiros factos a ter em conta na história desta aldeia é a célebre Carta de Foro Perpétuo da Herdade de Alvares, outorgada em Setembro de 1281 por Martim Gonçalves e sua mulher Maria Viegas, carta essa que foi confirmada pelo rei D. Dinis. Trata-se de um foral pelo qual aquele casal doou aos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, que viviam no Mosteiro de Folques (actualmente uma freguesia de Arganil) as terras que hoje correspondem às actuais freguesias de Portela do Fojo e Alváres. Infelizmente, não se consegue concluir, pela leitura do dito foral, que nessa altura já havia moradores na terra que hoje corresponde à Amoreira, mas apenas que tal zona passou a ser propriedade do mosteiro.
Só em pleno século XVI é que conseguimos comprovar que já existia um núcleo populacional em Amoreira. Tal conclusão retira-se do segundo foral de Alvares, outorgado em 04 de Maio de 1514, pelo Rei D. Manuel I na sequência da reforma dos forais que então empreendeu. De facto, o mesmo contém duas menções sobre o território hoje correspondente à Amoreira e que passamos a transcrever: “Item tem mais a ordem outras propiedades de courelas de terra naldea de moreira de que pagam na folha em que emtram a oytava e duas galinhas. (…) E paga Joham louremço da moreira por huma casa um alqueire de trigo…”
Apesar de pequenos, estes trechos oferecem-nos informações bastantes interessantes sobre os nossos tetravôs. De facto, desde logo sabemos que já existia uma das Amoreiras, embora não saibamos se a Cimeira, se a Fundeira (“naldea”). Depois, conseguimos concluir que as terras continuavam a ser propriedade do Mosteiro de Folques, pois estavam arrendadas (“pagam na folha… a oytava”). Por fim, obtemos algumas informações sobre a economia da aldeia, já que aparecem menções sobre a agricultura (“alqueire de trigo”) e a pecuária (“duas galinhas”).
Não obstante as terras serem propriedade dos cónegos residentes no Mosteiro de Folques, a vida quotidiana era regulada, em grande parte pelo foral, mas também pela vereação da antiga Câmara de Alvares. Era a esta que cabia recolher as rendas devidas pelos arrendatários amoreirenses e demais munícipes daquele antigo concelho, a fim de as entregar aos cónegos que, de ano a ano, se deslocavam aos paços daquele concelho para as transportar para o seu mosteiro. A título de curiosidade, sempre que os cónegos de Santo Agostinho se deslocavam à Câmara de Alvares, esta tinha obrigatoriamente de lhes fornecer o jantar.
Em 1595 o Mosteiro de Folques é anexado ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra (um dos mais importantes mosteiros do nosso país), já que ambos seguiam a regra de Santo Agostinho. Alguns anos depois, mais precisamente a 29 de Janeiro de 1616, o Papa Paulo V autoriza a anexação das rendas do Mosteiro de São Pedro de Folques e do Mosteiro de Paderne (actualmente uma freguesia do concelho de Melgaço, no Minho) com vista à edificação (e mais tarde, à manutenção) do Colégio da Sapiência (também conhecido por Colégio Novo ou dos Órfãos) na cidade de Coimbra.
Outra importante notícia sobre a aldeia de Amoreira é-nos dada pelo Dicionário Geográfico do Padre Luís Cardoso, publicado na segunda metade do século XVIII. Fruto das respostas efectuadas pelo então pároco de Alvares (uma vez que nessa altura ainda não havia sido criada a paróquia de Portela do Fojo) ao inquérito paroquial enviado pela Diocese de Coimbra, esta valiosa obra oferece-nos duas importantes “fotografias”, com mais de duzentos anos, quer da Amoreira Cimeira, quer da Amoreira Fundeira e que, pela sua importância, passamos a transcrever na íntegra:
“Amoreira cimeira. Lugar na Provincia da Beira, Bispado de Coimbra, Arcediagado de Penella, Comarca de Thomar, Termo da Villa de Alvares: tem 15 vizinhos. Perto desta povoaçaõ fica a Ermida de Nossa Senhora de Guadalupe, a que concorrem romeiros aos oito de Setembro, dia em que se celebra a sua festividade.
Amoreira fundeira. Lugar pequeno na Provincia da Beira, Bispado de Coimbra, Arcediagado de Penella, Comarca de Thomar, Termo da Villa de Alvares: tem doze vizinhos. Distante deste lugar, hum tiro de pedra, está huma Ermida dedicada a Nossa Senhora de Guadalupe, à qual concorrem muitos romeiros no dia da sua festividade a oito de Setembro.”
Como se pode verificar, esta obra contém importantíssimas informações sobre a actual aldeia de Amoreira, a saber: tal como hoje, pertencia à Diocese de Coimbra; judicialmente, pertencia à comarca de Tomar, uma vez que ainda não tinha sido instituída a comarca de Arganil, à qual pertenceu durante vários anos antes da criação do actual tribunal em Pampilhosa da Serra; administrativamente, fazia parte do concelho de Alvares; a Amoreira Cimeira possuía sensivelmente 60 moradores, ao passo que Amoreira Fundeira tinha 48; finalmente, tinha uma capela, mas contrariamente ao que sucede hoje, era consagrada a Nossa Senhora de Guadalupe, e não a Santa Bárbara, a qual tinha bastante afluência no dia da sua festividade (8 de Setembro).
Avançando no tempo, chegamos a 1795, ano da criação da paróquia de Nossa Senhora da Paz da Portela do Fojo. Desta forma, a aldeia de Amoreira foi chamada a compor a antepassada da actual freguesia “…em consequencia de S.A.R. [Sua Alteza Real, à data a Rainha D. Maria I] ter mandado edificar huma nova Parochia na Portella (do Fojo), ou sitio do Villar d´Amoreira, para mais facil administração dos Sacramentos, e cõmodo espiritual daquelles Povos... o que tudo ficou pertencendo á dita nova freguezia, Curato, que se mandou edificar, ou transmutar para o sitio da Portella do Fojo, entre os dous lugares do Villar, e Amoreiras: á qual foram obrigados a pertencer igualmente os moradores do Lugar do Trinhão, com a sua Ermida de N. Senhora da Paz, ainda em Março de 1796”.
A partir daqui, o concelho de Alváres passou a contar com mais uma freguesia, embora Portela do Fojo passasse a pertencer eclesiasticamente ao Priorado do Crato, sede da Ordem de Malta, conforme Provisão emitida por aquele Priorado: “(...) tendo nós o mais eficaz desejo de visitar a freguesia existente interinamente na capela de Nossa Senhora da Paz do lugar do Trinhão e benzer a nova capela-mor da mesma freguesia e igreja paroquial de Nossa Senhora da Paz da Portela do Fojo do Vilar das Amoreiras (...) concedemos ao reverendo padre José dos Santos, não só a licença necessária para a benzer, juntamente àquela porção de terreno que se julgar precisa e conveniente para a sepultura dos mortos, mas também para mudar a subdita freguesia para a capela-mor e colocar a Pia Baptismal, sendo os seus paroquianos os moradores dos lugares seguintes: Trinhão, Várzeas, Vilar de Amoreira, Padrões, Folgares, Amoreira Fundeira, Amoreira Cimeira, Indioso e Soutelinho, desmembradas das freguesias de Álvaro e Madeirã e de Alvares, esta do Bispado de Coimbra que lhe pertence a administração dos Sacramentos e a Jurisdição da Eucaristia.”
Mas tal situação não durou muito tempo, pois em 1834 Joaquim António de Aguiar assina o Decreto de Extinção das Ordens Religiosas, extinguindo de uma só vez quer o Mosteiro de Folques, quer o Priorado do Crato. Em consequência, os Amoreirenses fizeram suas as terras que traziam arrendadas e deixaram de estar sob a alçada do Grão-prior do Crato.
O fim do século XIX traz com ele outra importante mudança na vida dos Amoreirenses. Com efeito, assiste-se nesta época a uma reforma administrativa no sentido de reorganizar o território português, que era uma enorme manta de retalhos, isto é, de pequenos concelhos.
Assim, em 24 de Outubro de 1855 é publicado um decreto que extingue, entre muitos outros, o vetusco concelho de Alvares ao qual a Amoreira pertencia desde a sua criação. O legislador de então, obedecendo ao velho ditado “dividir para mais fácil reinar”, decide que a vila de Alváres deverá ser anexada no concelho de Góis, ao passo que Portela do Fojo, onde se inclui a Amoreira, deverá ser integrada ao concelho de Pampilhosa da Serra.
Quanto à história do século XX, atenta a falta de espaço, a proximidade temporal e ao facto dessa época estar suficientemente descrita na obra “Portela do Fojo – a sua história, os seus problemas”, para lá remetemos o Leitor mais interessado.
Património
A par de Padrões, a Amoreira é outra aldeia da freguesia de Portela do Fojo que pode ter algum orgulho no património, quer arquitectónico, quer natural, que herdou dos seus antepassados. Senão vejamos:
Desde logo, possui quatro Alminhas, a maior parte delas em bom estado de conservação. Duas encontram-se no sítio de Selada, uma na Ladeira das Casas e a última no sítio nas Relvinhas.
Tem igualmente um cruzeiro, situado defronte da pequena estação de correios na Amoreira Cimeira, embora sem valor artístico. Atesta “apenas” a religiosidade destas gentes.
Quanto à arquitectura civil, encontramos ainda bastantes casas de xisto, algumas ainda no seu estado puro. Podem ser observados alguns quelhos e um curioso passadiço, palco de uma lenda já contada nas páginas deste jornal. Possui diversas fontes, de várias épocas do século XX, mas que merecem também atenção e – sobretudo – carinho por parte dos seus habitantes.
Mas a maior jóia desta bela aldeia é, naturalmente, a capela dedicada a Santa Bárbara. Pelo seu estilo, pensamos que se trata de um templo seiscentista. É formado por quatro corpos bem distintos: o alpendre, a nave, o altar-mor e o campanário.
O alpendre é formado por um telhado de três águas, com telha ondulada moderna. É suportado por dois grossos alicerces e quatro colunas de granito cilíndricas, amareladas pelo tempo. A base das colunas consiste em cubos de xisto que aparentam sinais de desgaste, fruto do tempo, da erosão e da qualidade da pedra utilizada. No interior do alpendre, ao seu redor, existem bancos de pedra corridos. O chão é revestido por lajes de lousa típica da região.
O acesso à nave faz-se por uma porta de madeira, com uma ombreira ligeiramente curva. Dois nichos laterais rectangulares deixam o visitante mirar o
interior da capela e avaliar a grossa espessura das paredes do pequeno templo (um dos factores que explica a sua sobrevivência até aos nossos dias).
A nave é pequena, apenas levando umas poucas dezenas de pessoas sentadas em bancos de madeira corridos. O Altar-mor é composto por um belíssimo altar em talha dourada, em arco de volta perfeita, no qual está colocada a imagem de Santa Bárbara.
O campanário, anexado à nave no lado direito, muito provavelmente erguido vários anos após a construção da capela, ostenta a inscrição “1763”. Tem um pequeno sino, suportado por um arco também ele de volta perfeita.
É um templo muito bonito que merece a visita do viajante. Pena é que, aquando das últimas obras de recuperação, não se tivesse tido o cuidado de preservar a linha arquitectónica original e de aplicar os mesmos materiais utilizados para a sua construção.
Quanto ao património natural, destacamos a Ribeira de Amoreira, que desagua no rio Zêzere, junto da Ponte da Amoreira e a Ponte dos Cegos, antigo ponto de ligação ao concelho de Góis, por onde passa o rio Unhais. Constituem aprazíveis locais quer para banhos, quer para a prática da pesca. O único senão é os maus acessos, principalmente no que respeita ao último local.
O mesmo já não sucede quanto aos caminhos municipais e florestais que permitem a ligação aos lugares ainda habitados que circundam a aldeia. De facto, oferecem ao visitante belas paisagens sobre as encostas. Salientamos sobretudo o Vale da Gata e o Ribeiro do Indioso. A bicicleta será o meio de transporte mais agradável nesta zona inserida na “Capital do Sossego”.
Por fim, e quanto ao património gastronómico, destacamos novamente a Chanfana, o Bucho, as Filhoses, o Pão-Leve, e a Broa de Milho, acompanhadas por um bom vinho morangueiro ou pelas Aguardentes de Uva ou de Medronho.
Etnografia
Algumas e curiosas tradições poderíamos descrever neste capítulo, mas novamente o espaço exige que sejamos breves. Assim sendo, descreveremos sumariamente uma interessante tradição que, felizmente, ainda se encontra bastante viva entre os naturais desta aldeia do sul do concelho pampilhosense.
Tal como referimos atrás, a padroeira desta aldeia não é uma invocação de Nossa Senhora (como sucede com as demais aldeias da freguesia de Portela do Fojo), mas uma santa, que no caso concreto é Santa Bárbara. Note-se, porém, que nem sempre assim foi, pois, como vimos atrás, alguns documentos referem que inicialmente a capela era consagrada a Nossa Senhora de Guadalupe.
Conforme dispõe o calendário religioso, é anualmente comemorada pelos fregueses no dia 4 de Dezembro, mas de uma forma tão arreigada que esta ocasião é considerada como um feriado, ou seja, neste dia ninguém ousa trabalhar, pois ele é inteiramente guardado para a santa.
À hora marcada, muitos aldeãos rumam à velha capela que alberga a bonita imagem da santa, de tal forma que o templo revela-se pequeno demais para tanta afluência, pelo que muitos são aqueles que ouvem a missa do alpendre ou mesmo fora dele (“só não vem quem não consegue”, dizem-nos). Mesmo assim, e apesar das insistências do pároco, os fiéis não abdicam do desconforto da sua capela em proveito do amplo espaço que existe na igreja matriz, sita na Portela. Tradição é tradição!
Alguns Amoreirenses (e muitos vizinhos seus) levam consigo sacas de milho (de 1 ou ½ alqueire), as quais são depois despejadas para o interior de uma saca de serapilheira. Actualmente, há quem leve outros produtos, como feijão seco, azeite, pão-de-ló, mel, aguardente ou mesmo dinheiro, mas a presença do milho ainda se faz sentir.
Finda a cerimónia, os produtos são expostos junto da capela, onde são objecto de licitação entre os presentes, revertendo as receitas para o culto e para a conservação da capela.
Aspecto curioso é o que diz respeito à licitação da saca do milho. Com efeito, a mesma é licitada entre os presentes, sendo atribuída, naturalmente, àquele que mais oferece. Todavia, o preço pago pelo licitante vencedor vai servir de referência ou de tabela para as futuras transacções de milho entre os fregueses, até ao próximo ano, pois foi esse o preço “do milho da Santa Barburinha”.
ANTÓNIO AMARO ROSA
O Autor
António Amaro Rosa é um pampilhosense que nasceu em Lisboa em 1976.
É licenciado em Direito (Universidade Autónoma de Lisboa) e Mestre em Estudos do Património (Universidade Aberta). Concluiu ainda o Curso de Estudos Avançados em Gestão Pública (Instituto Nacional de Administração) e o Curso de Especialização em Fiscalidade (Instituto Superior das Ciências do Trabalho e da Empresa).
Começou a sua carreira profissional como advogado. É jurista da Autoridade Tributária e Aduaneira desde 2006.
Impulsionou e organizou eventos culturais e científicos no concelho de Pampilhosa da Serra. É membro de várias associações sem fins lucrativos, tendo igualmente integrado os seus órgãos sociais em diversos mandatos.
Escreveu, em coautoria com Ana Paula Loureiro Branco, o livro Subsídios para uma Cronologia do Concelho de Pampilhosa da Serra (Município de Pampilhosa da Serra, 2007). Possui artigos publicados nas revistas Lusíada. Direito (2013), Terra de Lei – Revista da Associação de Juristas de Pampilhosa da Serra (2013) e Açafa (2015). Colabora regularmente no jornal Serras da Pampilhosa.
Notas / Bibliografia:
- Diciopédia 2001 / Porto Editora Multimédia; 2000
- Origens orientais da religião popular portuguesa: ensaio sobre toponímia antiga / Moisés Espírito Santo; Assírio & Alvim; Lisboa; 1988
- Forais Manuelinos do reino de Portugal e do Algarve / Luiz Fernando de Carvalho Dias; 1º vol. Beira; 1961
- www.cnig.pt
- www.diocesedecoimbra.pt
- Mapa da Divisão Judicial / Direcção-Geral da Administração da Justiça - Ministério da Justiça; 2002
- Carta Militar de Portugal nº 265 - Folha 277 (escala 1/25.000) / Instituto Geográfico do Exército; 1993
- Património Pampilhosense / Coord. Dr. António Lourenço; Casa do Concelho de Pampilhosa da Serra; 2002
- Dicionário corográfico de Portugal Continental e Insular / Américo Costa; Porto; Civilização; 1929-1949
- Arquivo histórico de Gois: revista de história, etnografia e regionalismo do Concelho de Gois / Mário Paredes Ramos - Torres Vedras; 1956-1971; reedição da C.M. de Góis
- www.monumentos.pt
- Dicionário Geográfico ou Notícia Histórica de Todas as Cidades, Vilas, Lugares… / Pe. Luís Cardoso; Tomo I; Lisboa; 1747
- Nova História da Militar Ordem de Malta e dos Senhores Grão-Priores della em Portugal / José Anastácio de Figueiredo; Lisboa; 1800; Officina de Simão Thaddeo Ferreira
- Portela do Fojo: a sua história, os seus problemas / Dr. Manuel Maria Antão; edição de autor; 2001
- A Lenda do Lagrisomem, in Literatura Popular da Beira Serra / Serras da Pampilhosa nº. 42 (Dezembro de 2002)
- Recolhas/ Depoimentos
- Memórias do Autor

