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Segundo António Amaro Rosa em pesquisa aprofundada sobre a aldeia desaparecida de Vilar da Amoreira; "Desconhece-se com exactidão o momento em que nasceu o Vilar da Amoreira, embora as primeiras referências a tal aldeia se reportem ao ano de 1614."
Segundo o mesmo autor, com o encerramento das comportas da Barragem do Cabril, em Fevereiro de 1954, ditava-se o futuro de uma das aldeias mais pitorescas da Freguesia de Portela do Fojo.
Com o desaparecimento da aldeia, restaram as memórias dos que lá nasceram, restou o cenário bucólico que podemos apreciar praticamente todos os verões, quando o nível da água desce.
Recordar o Vilar da Amoreira, será para muitos um exercício, misto de saudade e dor, ou quem sabe de muita nostalgia.
Para nos ajudar nesta tarefa, falámos com Amadeu Antão Rosa, natural de Ribeiro de Soutelinho, Freguesia de Portela do Fojo, cujas recordações de Vilar da Amoreira nos transportam a outros tempos, a outras formas de viver.
Órfão de pai aos 6 anos de idade, viu-se de repente a viver no Vilar, onde permaneceu até ao exame da 4ª classe.
Com o encerramento das comportas da barragem, muda-se de novo para Ribeiro de Soutelinho, onde permaneceu até ao serviço militar.
Amante de radioamadorismo e eletrónica, viveu praticamente toda a sua vida profissional em Lisboa como funcionário da Carris, onde ascendeu a lugares de chefia.
SerrasOnline - Do que se lembra ainda hoje, foi complicada a sua mudança para o Vilar da Amoreira?
Amadeu Rosa – Não. No Ribeiro as casas são dispersas, logo não havia a possibilidade de os miúdos se juntarem para a brincadeira. No Vilar havia um local de encontro, (no alqueve), ou em casa do Ti Firmino quando o tempo não permitia andar na rua.
SO - Naquele tempo na aldeia, certamente haveriam outras crianças da sua idade. Onde iam à escola?
AR - Nós íamos à escola à Amoreira Cimeira. Subíamos toda a lomba da Amoreira, (onde está hoje a estrada de alcatrão). Havia vários miúdos e miúdas. Recordo com saudade a Lurdes, filha do Ti Felisberto, o irmão o João, o Herlander Rosa, a Fernanda Rosa, o Júlio etc.
SO - Lembra-se de algum episódio dessa época que de alguma forma o tenha marcado?
AR – Logo que eu fui para o Vilar, um dia junto com os outros fomos roubar peras ao Ti Manuel Rosa. Quando ele se apercebeu correu atrás do pessoal e eu que era o mais novo não consegui fugir. Então ele agarrou-me e levou-me ao meu avô. Já não recordo se o meu avô me bateu.
SO - Há quem afirme que o Vilar "era o celeiro", da freguesia de Portela do Fojo. Fale-nos um pouco da agricultura nessa época. Como era feito o regadio, a moagem do milho onde era feita, e o lagar, que tipo de lagar era o "Lagar de Cima?
AR – Era-o de fato. Principalmente no que diz respeito ao azeite. Era o Vilar que abastecia de azeite todas as povoações das redondezas. Em relação a
outras culturas muito milho, geralmente para consumo e havia ainda muitas melancias melão feijão etc. Para moer o milho e também algum centeio havia várias azenhas: dos Rosas, dos Antunes, dos Baratas e dos Amaros, todos no barroco que ia do Fojo dar ao rio. No próprio rio, em frente à barroca da figueira, tinha-mos o do povo. Não me lembro bem mas tenho ideia que teria duas mós. Nos lagares de azeite o de “baixo” era de varas e tinha vários proprietários, o de “cima” era também de varas e tinha um pio para caso não houvesse água a azeitona ser moída por uma junta de bois. Lembro-me que no lagar de “cima” desfaziam o meu avô João Rosa e o nosso tio Alberto Barata, (Amaro) mas não recordo mais
SO - Num comentário, numa Rede Social, afirmou conhecer todos os "quelhos", o lagar, e a azenha. Como eram as ruas de Vilar da Amoreira?
AR – Bom, havia uma rua larga da casa do meu avô até à rua principal, (onde passavam os carros de bois). Depois havia uns quelhos. E destes talvez o mais importante seria o que de casa do meu avô seguia pela porta do Tio Alberto Barata, (Amaro), até ao lagar de cima.
SO - Nas observações que se podem fazer das ruínas, verificamos que a aldeia já teria habitações espaçosas. Que recordações guarda desse tempo?
AR - Das casas recordo-me da do meu avô que era grande e espaçosa. Recordo ainda a do Ti Firmino por ser onde a miudagem se juntava. É natural que as casas fossem grandes para a época. O Vilar era uma povoação muito rica em azeite em milho e em mel.
SO - A par da agricultura, as abelhas, pelos vistos, eram uma mais valia para a aldeia. Nessa época, como todos sabemos eram tempos complicados, como era utilizado o mel na alimentação?
AR – Eu era novo mas, mas o mel utilizava-se um pouco como hoje o açúcar. Lembro-me das fatias de broa que a minha avó me dava cobertas de mel. Também haviam as bebidas. Por ver fazer, aguardente de medronho com mel. (usava-se muito nas roçadas do mato) Tanto quanto me lembro o meu pai era um apicultor razoável e que vendia mel. Quando morreu tinha cerca de 60 colmeias feitas de cortiça.
SO - No comentário atrás referido afirma, e citamos, " tomei banho no poço dos rapazes". Explique-nos lá melhor. Havia um poço para os rapazes e outro para as mulheres?
AR – Pois havia 3 poços. Um para as mulheres, pese que eu nunca lá tenha visto nenhuma, a tomar banho. Havia depois o dos rapazes que ficava à entrada do poço dos homens. O poço dos homens era tão fundo que só havia um homem que lá ia ao fundo, o pai do Júlio Ti António Dias, (Fontes). Naquele tempo não havia calções tomava-se banho de forma naturalista.
SO - Subentendemos nus, assim se compreendem os 3 poços. E esta convivência separada era pacífica na aldeia?
AR – Era que eu me lembre nunca houve qualquer atrito dos homens ou dos rapazes andarem nus a tomar banho.
SO - O que sente, quando visita o Vilar atualmente?
AR – Uma certa nostalgia. O reviver de recordações da infância. O jogo do pião de que eu era um bom executante. (O meu tio José Rosa que era carpinteiro fez-me um pião maior com que eu derrotava todos)
SO- Como gostaria de ver o Vilar da Amoreira no futuro?
AR - Gostaria de ver concretizado um projeto que o Sr Américo Gaspar (já falecido) tinha penso que dele deu conhecimento às entidades competentes, e que constava de fazer no Vilar um aldeamento turístico aproveitando para isso todas as casas que em ruinas por lá se encontram
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