O Caso das Minas da Panasqueira

 De facto, as minas da Panasqueira, são o exemplo acabado de uma exploração que contribuiu ao longo dos últimos 115 anos, para um passivo ambiental, contribuindo decisivamente para a destruição da flora, e dos ecossistemas fluviais, não se sabendo com exatidão as reais dimensões sobre a saúde humana. Novos estudos realizados na população da Aldeia de S. Francisco de Assis apontam para resultados que indicam um elevado risco de contaminação ambiental humana resultante da atividade mineira, enfatizando a necessidade de implementar medidas de prevenção, correção e planos de reabilitação. Isto conduziria indubitavelmente a uma redução no risco de cancro, não só para esta população específica, mas para todas as populações expostas em condições semelhantes. COELHO, Patrícia C; et al., (2011); CANDEIAS et al., (2014; 2013)

É sabido que a atividade mineira exerce uma influência significativa sobre o ambiente natural, pelo que se reveste de particular interesse, do ponto de vista de proteção ambiental, estudar as interferências e influências da atividade mineira.

A água de mina, evacuada pelo sistema de esgoto, pode causar impactes no ecossistema aquático envolvente devido ao seu baixo pH, o qual, por sua vez, aumenta o poder de dissolução de elementos químicos tóxicos, transportando-os, por vezes, até distâncias consideráveis da origem, podendo em caso de ingestão por via dos sistemas de fornecimento público de água, ou de rega, criar mesmo situações graves de saúde no ser humano.

Importa também referir que, antes da chegada à barragem do Cabril, nas aldeias próximas do Cabeço do Pião (Barroca do Zêzere, Dornelas do Zêzere, Porto de Vacas, Esteiro, Janeiro de Cima, Janeiro de Baixo, Cambas), muita da água do Rio Zêzere, e dos seus afluentes é usada para regas na agricultura, entre outros fins e, apesar do que aqui foi mencionado, não é feita nenhuma análise à qualidade da água para consumo humano, nem tão pouco se pode garantir que, ocorra uma atenuação natural destes metais pesados, ou ainda que, por alguma razão, as condições químicas não se alterem de modo a que o arsénio continue precipitado. Portanto, e dada a natureza tóxica e agressiva do arsénio e outros metais pesados em presença na paragénese da Panasqueira (arsénio, cobre, manganês, ferro, zinco, chumbo) seria importante analisar a água do Rio Zêzere ao longo do seu curso em vários locais a jusante da Escombreira do Cabeço do Pião.

Em concreto, preocupa-me, o atual estado de abandono a que chegou a escombreira do Cabeço do Pião, junto ao rio Zêzere. Recentemente ocorreu um deslizamento da escombreira (foto 1), inviabilizando o acompanhamento e recolha de amostras de água nesse local (conhecido por Resteva Norte e Resteva Sul) por parte da SBTWP, de forma a acompanhar a qualidade de água no Zêzere a jusante das minas. Preocupa-me também o abandono desta área por parte da autarquia do Fundão, atual detentora da área do Cabeço do Pião, pois a água do Zêzere a partir daqui encontra aldeias e, consequentemente pessoas que utilizam as suas águas para regar os terrenos agrícolas com água do Zêzere. No mínimo isto é preocupante. .

Deslizamento recente e que tapa a conduta de águas (Vista em ângulos diferentes, à  esqª sentido montante, à dta sentido jusante.

Esses deslizamentos inviabilizam a recolha de DAM (Drenagem Ácida Mineira) produzidas pela escorrência na escombreira, que eram encaminhadas por bomba para uma ETAR no Cabeço do Pião, próximo do bairro Chinês, e que, escorrem agora diretamente para o rio sem qualquer acompanhamento.

O problema reside no facto de que, nem todas as drenagens ácidas são efetivamente recolhidas pela conduta superficial. Apesar de a sul da Escombreira existir uma conduta que recolhe estas drenagens ácidas, esta encontra-se em mau estado de conservação (fruto do desleixo e abandono), e na maior parte das vezes encontra-se entupida (foto 1) pelos materiais originados pelos deslizamentos. Os taludes neste local estão bastante instáveis, e por isso, os deslizamentos de material para o nível de base (margem do Zêzere), onde se encontra a conduta, são muito frequentes. Este material recobre-a e, se não for removido, impede a recolha das águas e a chegada destas à Estação de Bombagem. Como está partida em alguns locais, parte das drenagens ácidas seguem diretamente para o Rio Zêzere, diminuindo o caudal que entra no ciclo de tratamento e aumentando assim, a quantidade de DAM (Drenagem Ácida Mineira) encaminhadas para o rio contribuindo assim para uma maior mobilização e dispersão de contaminantes que entram diretamente nas águas do rio Zêzere e por esta transportada a longa distância (foto 2a).

A origem das águas ácidas, em minas, obedece a uma série de mecanismos complexos. De certa forma a sua reação é acelerada pela presença de bactérias que, de uma forma muito simples, produzem a oxidação dos sulfuretos, libertando ácido sulfúrico e metais em solução (PAGÉS VALCARLOS, 1993; V. GONZÁLEZ, 1990). A forma de oxidação, da pirite, é a mais conhecida e desenvolve-se em várias etapas. No decorrer, destas etapas, o pH vai-se tornando, cada vez, mais ácido.

Numa primeira etapa o sulfato ferroso, ao ser oxidado transforma-se em sulfato férrico, na etapa seguinte o sulfato férrico ao reagir com a água, origina o ácido sulfúrico que, sendo solúvel, precipita provocando a típica coloração alaranjada, das margens, e do fundo de rios e ribeiros, caso do rio Zêzere no Cabeço do Pião (foto 2c e 2d).

 Foto 2 – (2a) Canal de recolha de drenagens ácidas mesmo ao lado do rio Zêzere. (2b) Vista do terraço inferior na parte norte da base da escombreira. O círculo e a seta a vermelho destacam as drenagens ácidas e a sua acumulação (foto SILVIA ANTUNES, 2010). (2c) Descarga direta no rio Zêzere em que e existência de algas do tipo “Microspora Tumidula Hazen, confirmam a elevada acumulação de arsénio” (GONÇALVES, 2011/12). (2d) acumulação de águas ácidas no canal de recolha de DAM com acumulação de ácido sulfúrico.

 

A parte mais a norte da escombreira não possui nenhum mecanismo de recolha/transporte das drenagens, e permite que se formem poças com esta composição ácida no terraço inferior da Escombreira, de que é exemplo a foto 2b e 2c e 2d.

Portanto, tanto na parte norte como a sul da Escombreira do Cabeço do Pião, existem DAM (Drenagens Ácidas Mineiras) que têm efetivamente como destino o rio Zêzere. É de fundamental importância levar em linha de conta o impacte ambiental destas drenagens ácidas, uma vez que estas podem alterar substancialmente as características físico-químicas que determinam a qualidade de uma água superficial. Perante estes factos deveriam ser efetuadas análises das águas a montante, e ao longo da Escombreira e a sul desta para avaliar eficazmente o impacte destas DAM no rio Zêzere.

É de referir que a empresa Sojitz Beralt, proprietária da concessão da Panasqueira, colocou recentemente em funcionamento uma Estação de Tratamento de Águas Residuais, a jusante da velha ETAR da Salgueira, ao que aguardamos expectantes os resultados dos tratamentos processados, no entanto, o passivo ambiental provocado anteriormente continuará presente por muitas e muitas décadas, e o Homem será sempre o recetor final de todo esse passivo, com todas as consequências inerentes.

Anselmo Gonçalves(1)

 

Anselmo Casimiro Ramos Gonçalves. Mestre em Geografia Física e Estudos Ambientais pela Universidade de Coimbra. Licenciado em Geografia pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Investigador em doutoramento do CEGOT – Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território. Doutorando em Geografia pela Universidade de Coimbra.

 

Bibliografia Consultada

 ANTUNES, SÍLVIA (2010) – Levantamento do Estado de Contaminação da Barragem de Lamas e Escombreira da Mina da Panasqueira. Dissertação apresentada à Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto para obtenção do grau de mestre em Engenharia de Minas e GeoAmbiente, Porto, 184 p.

ÁVILA, P.; FERREIRA DA SILVA, E.; SALGUEIRO., A.; FARINHA, J. A. (2008) – Geochemistry and Mineralogy of Mill Tailings Impoundments from the Panasqueira Mine (Portugal): Implications for the Surrounding Environment. Mine Water Environ., 27, pp. 210-224.

CANDEIAS, Carla; MELO, Rita; ÁVILA, Paula; SILVA, Eduardo; SALGUEIRO, Ana; TEIXEIRA, João. (2014) – Heavy metal in mine-soil-plant system in S. Francisco de Assis – Panasqueira Mine (Portugal). Applied Geochemistry, 44, pp. 12 – 26

CANDEIAS, Carla; ÁVILA, Paula; SILVA, Eduardo; FERREIRA, Adelaide; MELO, Ana; TEIXEIRA, João. (2013) – Acid mine drainage from the Panasqueira mine and influence on Zêzere river (Central Portugal). Journal of African Earth Sciences, XXX-XXX, pp. 1 – 8.

COELHO, Patrícia C; GARCIA-LESTON, J; et al (2011) – Geno - and immunotoxic effects on populations living near a mine: a case study of Panasqueira mine in Portugal. J Toxicol Environ Health A. 2011; 74 (15-16): 1076-86.

GEOFFREY S. Plumlee; MORMAN Suzette (2011) - Mine Wastes and Human Health. ELEMENTS, VOL. 7, Denver, USA, pp. 399 - 404.

GONÇALVES, Anselmo C. R. (2007) - MINA DA PANASQUEIRA - CONTRIBUTO PARA UM PLANO DE RECUPERAÇÃO AMBIENTAL E PAISAGÍSTICA Dissertação apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Departamento de Geografia, para a obtenção do grau de mestre em Geografia especialização em Geografia Física e Estudos Ambientais, Coimbra, 163 pp.

GONÇALVES, Anselmo C. Ramos (2010) “Impactes Ambientais em Áreas Mineiras Activas – O Caso da Ribeira do Bodelhão Minas da Panasqueira, publicada nas atas do VI Simpósio Latino-Americano de Geografia Física em: www.uc.pt/fluc/cegot/VISLAGF/actas/tema4/anselmo

GONÇALVES, Anselmo C. Ramos (2011) – Alterações Ambientais Recentes e Riscos Associados no Médio Curso do Rio Zêzere – O Couto Mineiro da Panasqueira. In (SANTOS, N; CUNHA, L.) - Trunfos de Uma Geografia Activa. Desenvolvimento Local, Ambiente, Ordenamento e Tecnologia. Imprensa da Universidade de Coimbra, pp. 753 – 760.

GONÇALVES, Anselmo C. Ramos (2011/12) – Riscos Associados à Exploração Mineira. O Caso das Minas da Panasqueira. Cadernos de Geografia, 30/31, Coimbra, FLUC, pp. 131 – 142

GONZALEZ, Victor (1990) – “A Indústria Extractiva e o Ambiente”. Boletim de Minas, 27 (3), Jul/Set, Lisboa, pp. 311 - 323.

JAMIESON, Heather (2011) - Geochemistry and Mineralogy of Solid Mine Waste: Essential Knowledge for Predicting Environmental Impact. ELEMENTS, VOL. 7, Kingston, Canadá, pp. 381 - 386.

NORDSTROM, D. Kirk (2011) - Mine Waters: Acidic to Circumneutral. ELEMENTS, VOL. 7, Columbia, USA, pp. 393 - 398.

PAGÉS VALCARLOS, J. L. (1993) – “Las Alteracciones ambientales en sistemas naturales provocadas por la minería metálica”. Cuaderno Lab.Xeolóxico de Laxe, Vol. 18, pp. 289 – 306 

RIBEIRO, Luís Jaques; GONÇALVES, Anselmo C. R. (2013) – “Contributo para o Conhecimento Geológico e Geomorfológico da Área Envolvente do couto Mineiro da Panasqueira”. Revista GOT – Geografia e Ordenamento do Território, 3, 2013 pp. 93-116. in: http://cegot.org/ojs/index.php/GOT/article/view/70/35

0
0
0
s2sdefault