"Questiono-me sobre o porquê de a partir dessa data (1976) os responsáveis políticos com ação direta na autarquia de Pampilhosa da Serra terem menosprezado o 25 de Abril."

"Este Provavelmente Ainda não Aconteceu em Pampilhosa da Serra"

 Cheguei ao concelho de Pampilhosa da Serra, vindo do Brasil com os meus pais em fevereiro de 1981 e portanto, passei o meu 25 de Abril de 1981, em Portugal, e embora vindo de uma ditadura no Brasil do senhor General Ernesto Geisel, que passou a pasta ao General Figueiredo e em boa memória este abrandou a pressão sobre o comum do cidadão brasileiro, mas, ficou-me na altura no ouvido o que se ouvia nas rádios brasileiras em Salvador da Bahia, Rio de Janeiro e S. Paulo, e sem Censura, terra de Caetano Veloso, Gal Costa, Maria Bethânia, Milton Nascimento, Fagner, José Ramalho e o grande Chico Buarque e deste, o elogio à nossa festa: “foi bonita a festa pá. Fico contente. E enquanto estou ausente Guarda um cravo para mim”. Mesmo em ditadura, e dura, nunca deixei de ouvir esse hino que o Chico Buarque escreveu.

 Chegado a Pampilhosa da Serra em 1981 como disse, perguntei a meus pais “pai esta gente não tem memória?” nessa altura achei estranho, mesmo muito estranho, que a data em que se comemorava o dia que tinha como “chavão” o dia em que o Povo voltou a ser Livre, não viu a luz do dia em Pampilhosa da Serra.

Será que desde o dia 25 de Abril de 1974 até ao dia 25 de Abril de 2020 (46 anos) a Pampilhosa da Serra, mesmo com iluminação LED’s, vive na escuridão do antes 25 de Abril?

Penso que muitos cidadãos pampilhosenses, num passado já distante, saudades tinham e ainda acalentavam uma ilusão, que se foi tornando ténue à medida que nos fomos afastando da data inicial em que tudo poderia voltar ao 24 de Abril tal e qual idealizavam.

Tal não se passou, para bem de todos nós, mas o aparente ou total alheamento desta data por parte do poder autárquico instituído desde 1976 (note-se que entre 1976 e 1979 - o Partido Socialista esteve à frente dos desígnios autárquicos) até 2019, mostra o esquecimento dessa data e com laivos de maquiavelismo.

Poder-se-á cair na tentação de dizer que os pampilhosenses nunca ligaram para essas coisas (FALSO), mostram os resultados da primeira eleição para a Assembleia Constituinte no dia 25 de Abril de 1975, que votaram 92% dos eleitores recenseados, e o PS teve 38% dos votos e o PPD teve 26,4% dos votos, o PCP teve 12,5% dos votos e o CDS teve 7,6% dos votos, tendo os restantes partidos obtido votos inferiores a 5% (dados da CNE).

Posso e devo perguntar se nessa altura este concelho tinha estradas? A resposta é Não. As que tinha eram boas? Não. Na grande maioria simples carreiros de cabras ou de carros de bois. Ausência total de transportes públicos ou privados, os Táxis (poucos) existiam mas eram extremamente caros para as populações sem dinheiro, mas o povo marcou presença em todas as Assembleias de voto nas freguesias do concelho de Pampilhosa da Serra. Que grande ensinamento esses Homens e Mulheres deram aos que hoje têm tudo e abdicam de um direito e um dever conquistado a ferros. Lembramos que em 1975 não existiam eleitos locais mas sim Comissões Administrativas, as primeiras eleições livres para o poder local realizaram-se no ano seguinte 1976, no mês de dezembro.

Questiono-me sobre o porquê de a partir dessa data (1976) os responsáveis políticos com ação direta na autarquia de Pampilhosa da Serra terem menosprezado o 25 de Abril.

Tentei e ainda hoje tento encontrar respostas, tenho algumas, que não as exponho pois refletem o que penso acerca de cada um em cada momento e poderão ofender suscetibilidades, mas meu Deus, o que é que é preciso para como Sérgio Godinho dizer que ao fim de 46 anos “A LIBERDADE ESTÁ A PASSAR POR AQUI” espero que no futuro passe e depressa pela Pampilhosa da Serra.

Não, agora não invoquem que o feriado do Município de Pampilhosa da Serra (10 de abril) é muito próximo da data do 25 de Abril, não há razões que o justifiquem, ou então tal e qual como o Rei D. Dinis, se fosse um bom Rei sua esposa não teria de andar a invocar a intervenção divina para transformar Pão em Rosas.

 

 Anselmo Gonçalves

 

 

0
0
0
s2sdefault