Antes de assim o ser já o era. Antes deste novo ar robusto e renovado, já era um espaço repleto de memórias - não dele, nossas. Antes de esta porta ser erguida, já uma escadaria tinha mais memórias que esta porta alguma dia terá. Antes da porta, que nos veda o acesso ao interior, existia apenas uma pequena escadaria que a algum lado iria dar mas que nunca como acesso foi usada - pelo menos por nós. Agora está longe da nossa vista...

Por: Márcia Arnaud

Muitas são as memórias nesta escadaria. Nunca a subi com o intuito de a subir, mas sim com o de arranjar espaço para mais um se sentar. Nunca imaginámos o que haveria do outro lado da porta porque, todos sabíamos que o que mais importava estava cá fora. Nunca, para nós, serviu o seu propósito de ligação entre o cá e o lá, mas de certo que promoveu a ligação entre nós. Muitas foram as gargalhadas que demos quando víamos os resultados dos concursos de desenhos. Coloríamos livros e mais livros, até os lápis de cera sumirem sem nunca nos cansarmos. Muitas foram as banhadas de farinha e água que levou, ora não fosse um dos locais predilectos para a empreitada a enfeitar a aldeia, e muitas foram as horas a raspar os degraus para que ninguém se apercebesse da nossa azelhice. Muitas foram as conversas à porta de casa, naquela ânsia entre os pensamentos "tenho de ir fazer o jantar" versus "vá, só mais um pouco...", que assistiu que deve saber umas belas histórias nossas.

Agora desapareceu. Há coisas que só ficam guardadas na memória dos que viveram e, uma vez que os objectos não têm memória, as suas memórias são para sempre de quem com eles esteve.

Por: Márcia Arnaud

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