"Se um dia surgisse a oportunidade de viver no Armadouro continuando com a minha carreira da mesma forma, provavelmente não pensaria 2 vezes."

Com uma carreira de mais de 10 anos, repartida entre as suas várias vertentes, tanto de músico, compositor, letrista e vocalista, Nelson Ritchie tem seguido um percurso muito próprio, diversificando a sua sonoridade. Com uma apetência especial para a música pop, adotou sempre a língua de Camões como meio preferencial para o seu trabalho.

Nascido em 1987 numa pequena localidade da região de Paris, veio para Portugal com 18 anos, onde 3 anos depois é considerado como a revelação do ano 2008, ano de lançamento do seu primeiro álbum.

Nelson conseguiu desde então conquistar o público através de uma presença assídua nas redes sociais, lançando alternadamente singles e álbuns, trabalhando com músicos altamente conceituados no mercado nacional.

Em palco o artista apresenta-se em 2 possíveis formatos; acompanhado por um guitarrista, num espetáculo intimista em que a voz, as letras, e as harmonias se juntam para criar um momento inesquecível, ou com banda de 5 músicos, onde a energia do cantor conquista.

Com o lançamento de mais um single, "À espera de ti", falámos com o cantor para conhecermos melhor mais uma estrela do espetáculo com raízes no Armadouro, Pampilhosa da Serra.

SerrasOnline News - Nasceu em França, e com 18 anos vem para Portugal. Segundo afirmou um dia, e citamos uma entrevista, " ...fiquei muito feliz! Era o meu principal sonho". Que sonho era esse?

Nelson Ritchie – Sempre me senti muito bem em Portugal. Enquanto luso-descendente, o tempo que passava em Portugal limitava-se às férias de verão e isso sabia-me sempre a pouco. Por isso ao longo da minha adolescência, foi crescendo em mim o sonho de viver e fazer a minha vida em Portugal.

SerrasOnline News - Para um rapaz com 18 anos certamente não foi fácil tal mudança. O que mais lhe custou na adaptação?

Nelson Ritchie - Felizmente, a mudança para Portugal acabou por ser feita em família, e isso permitiu facilitar tudo, no entanto, a minha timidez fez com que fosse bastante difícil no início criar novas amizades e esse foi o aspeto mais difícil da minha adaptação.

SerrasOnline News - Qual foi o papel que a região de Pampilhosa da Serra exerceu sobre o jovem Nelson na fase de adaptação?

Nelson Ritchie - O Armadouro sempre foi um sítio onde me senti em casa, e poder lá ir várias vezes ao ano durante essa fase foi uma forma de me reencontrar e relembrar o motivo pelo qual quis fazer uma mudança tão grande .

SerrasOnline News - Como vê o futuro dessa sua segunda casa? Ou seja, como vê o futuro das Serras da Pampilhosa?

Nelson Ritchie - Infelizmente, temos assistido ao longo dos anos a um despovoamento das aldeias e acho isso triste, mas quero acreditar que com o crescimento da sociedade digital em que é possível trabalhar a partir de casa em qualquer ponto do mundo, as pessoas se afastem das cidades. Se um dia surgisse a oportunidade de viver no Armadouro continuando com a minha carreira da mesma forma, provavelmente não pensaria 2 vezes.

SerrasOnline News - É uma pessoa "preocupada" com os assuntos do concelho de Pampilhosa da Serra?

Nelson Ritchie – Fico muito preocupado pelo aumento dos incêndios florestais, que considero não serem sempre “acidentais”, e com a plantação intensiva de eucalipto e os seus efeitos sobre o solo na região. O cheiro dos pinheiros era a melhor lembrança que eu levava comigo das férias “na terra”, e hoje em dia quase só consigo cheirar eucalipto.

SerrasOnline News - Pensamos que já atuou nas festas do concelho de Pampilhosa da Serra. Qual foi a sensação, sentiu-se em casa a cantar para os amigos?

Nelson Ritchie - Felizmente já tive oportunidade de atuar na Pampilhosa em 2009 e confesso que foi muito gratificante para mim, não só por me sentir “em casa” mas também por sentir-me reconhecido como “filho da terra”. Eu não nasci na Pampilhosa, nunca vivi lá um ano inteiro, mas desde criança que sempre chamei “minha terra” àquela aldeia e esse reconhecimento foi muito forte para mim. Desde então nunca mais surgiu essa oportunidade, mas quem sabe o que o futuro nos reserva.

SerrasOnline News - Se numa ação especifica para ajudar o concelho de Pampilhosa da Serra, fosse convidado a participar, que musica escolheria para os fãs Pampilhosenses?

Nelson Ritchie – A minha single “Viva La Vida” foi composto no Armadouro durante umas férias da Páscoa, e recordo esse momento sempre que o canto, por isso este tema seria sem dúvida uma boa escolha.

SerrasOnline News - Sabemos que frequentou a Faculdade na área do Turismo. Como conciliou os estudos com a música?

Nelson Ritchie - Não foi fácil, de todo, mas eu estava muito focado no meu objetivo e estava disposto a tudo para poder seguir em frente. O meu primeiro álbum demorou cerca de 6 meses a ser produzido, e ao longo desse tempo, não tive muito tempo para pensar em como fazer para conciliar as duas coisas, fui-me organizando e queimando horas de sono, mas o resultado ficou exatamente como eu pretendia e só por isso valeu a pena.

SerrasOnline News - Como se vê no futuro, um técnico de turismo ligado à música, ou um músico ligado ao turismo?

Nelson Ritchie - O meu curso de Turismo sempre foi o meu plano de segurança caso a minha carreira não me permitisse viver, e por isso sempre me fiz esta pergunta também. Por várias vezes a vida afastou-me da música e seguir outros rumos, mas acabei sempre por voltar àquilo que me faz realmente feliz, e foi assim que percebi que este era o meu caminho. Sou um músico que faz turismo de vez em quando.

SerrasOnline News - E na musica, como foi a sua adaptação ao ambiente em Portugal?

Nelson Ritchie - A minha adaptação a Portugal em termos musicais correu muito bem, tive a sorte de conhecer imensos músicos de grande talento e com os quais criei uma grande amizade, e isso foi um passo determinante na construção da minha vida e profissão em Portugal.

SerrasOnline News - Ser oriundo de uma família ligada intimamente à musica, e porque não dizer ao sucesso ajudou na sua adaptação?

Nelson Ritchie - Não, pelo contrário. Por acharem que o meu caminho seria “fácil”, muitas portas ficaram fechadas para mim, e foram poucas as pessoas que me estenderam a mão nessa altura. Nunca quis usar o “trunfo” da minha família por considerar que o meu crescimento na música tinha de ser gradual e conquistado mas de uma certa maneira, o meu caminho acabou por ser mais difícil. Hoje em dia valorizo o meu percurso e todas os passos que dou pois ainda sinto os esforços que tive de fazer para chegar onde estou.

SerrasOnline News - Para os artistas há diferenças entre Portugal e a França, ao nível da aceitação do trabalho em palco?

Nelson Ritchie - Não acho que exista grande diferença entre a aceitação do público. seja em França seja em Portugal, o público aceita ou não aceita o trabalho, é simples, no entanto no meu entender existem grandes diferenças na forma de demonstrar a aceitação. Os Portugueses no estrangeiro vivem uma saudade que não é sentida por quem vive em Portugal e isso faz com que a assiduidade aos espetáculos seja talvez maior no estrangeiro. No entanto, em Portugal, quando o trabalho é bem aceite, o público não poupa no carinho que transmite ao artista, e isto é o motor de todos os músicos.

SerrasOnline News - Usualmente de que forma se manifestam os fãs? Pedem mais e mais, ou simplesmente expandem as emoções?

Nelson Ritchie - geralmente pedem mais ah ah. Eu gosto de imaginar um concerto como um filme com uma duração ideal, nem muito curto, nem muito comprido porque acho sempre que as pessoas ficam aborrecidas se ficar muito tempo em palco, e por isso às vezes tenho de “improvisar” momentos em palco porque as pessoas pedem mais. É muito gratificante e tem uma força incrível. Antes de entrar em palco sou sempre uma pilha de nervos por ter muitas inseguranças em palco, mas dou muitas vezes por mim em palco a pensar “Isto é o que te faz feliz, então vive o momento e diverte-te!”

SerrasOnline News - Recentemente, assistimos a uma maior aceitação por parte dos mais jovens, do tipo de música que o Nelson desenvolve. Na sua opinião a que se deve esta mudança?

Nelson Ritchie - Acho que existe um interesse cada vez maior na música pop cantada em Português e esse é o principal motivo. Há uns anos, muitos artistas optavam por cantar em Inglês, por ser mais bem visto e por existir algum “preconceito” contra as letras Portuguesas, e isso ressentiu-se na sociedade. Hoje em dia acho que o Português se impõe cada vez mais como uma língua linda de se ouvir. Devido às características do Português de Portugal, é muito difícil escrever na língua de Camões, mas para mim, uma letra bem escrita em Português é uma obra de arte pura.

SerrasOnline News - Em palco, o que mais lhe agrada, o espetáculo intimista acompanhado da guitarra, ou em conjunto com os 5 músicos que habitualmente o acompanham?

Nelson Ritchie - Não consigo ter preferência pois cada formato corresponde a uma forma diferente de encarar o palco naquele espetáculo. Gosto de imaginar a versão intimista como uma espécie de reunião de amigos em casa, em que pego na guitarra e passamos a noite a cantar. Fico extremamente descontraído e o prazer em palco é incrível. O formato com banda é muito mais baseado na energia que eu e os músicos conseguimos transmitir ao público, fico mais nervoso antes de entrar e só liberto esses nervos quando começa o concerto.

 

SerrasOnline News - "À espera de ti", o seu último trabalho, a certa altura pode ouvir-se, "Não há palavras para sarar o coração". Não há mesmo?

Nelson Ritchie - Eu sinto que não. Podemos sempre tentar apaziguar o coração de alguém com palavras, mas por muito que possam ajudar, nenhuma palavra consegue sarar o coração. Só o tempo mesmo, e por vezes nem isso.

SerrasOnline News - A letra da canção é a todos os níveis actual. Pode falar-nos como surgiu a ideia para este projecto?

Nelson Ritchie - Quando se iniciou o confinamento, todos nós ficamos em casa, longe das pessoas com quem estávamos habituados a conviver. E por muito que soubéssemos que era por bons motivos, isso não impediu de sentir saudades. Foi logo no início do confinamento que me surgiu este tema, no qual quis expressar o que eu sentia, mas adaptando a letra para que possa representar toda a gente. Depois de ter o tema escrito, decidi dedicar o meu tempo de confinamento em estudar uma forma de poder ser mais independente, produzindo música, e foi assim que surgiu este tema.

SerrasOnline News - A certa altura diz também, " Tantos dias já passaram, E eu sei que cá em casa fico bem". Acredita que foi, ou que continua a ser uma boa decisão?

Nelson Ritchie - Acredito que foi uma boa decisão na altura, e acho que o empenho dos Portugueses em ficar em casa foi a chave para que esta situação ficasse controlada, mas hoje acho que é importante percebermos que uma eventual vacina ainda vai demorar a ficar disponível, e que devemos aos poucos regressar a uma certa normalidade, sempre seguindo as regras de distanciamento.

SerrasOnline News - Como viveu estes tempos complicados de pandemia?

Nelson Ritchie - Vivi com algum receio de tudo o que estava a acontecer, e do que poderia acontecer, resguardei-me o máximo possível e tentei proteger-me e proteger os que me rodeiam. O tempo foi sobrando por falta de trabalho e então decidi aproveitá-lo para ler, estudar, criar, escrever e pôr a prova o arquivo de filmes da Netflix…

SerrasOnline News - Confesse lá, que vê mais na Netflix? Também é fã de series?

Nelson Ritchie – Gosto muito de séries, mas sou fã incondicional de cinema desde a infância. Em termos de série, aproveitei a quarentena para fazer maratona de “Uma Família muito moderna” e ver os filmes “John Wick” todos de seguida.

SerrasOnline News - Projetos, pode desvendar-nos um pouco o futuro?

Nelson Ritchie - Estou atualmente a trabalhar em vários novos singles, talvez um álbum, e vários duetos.

 

 

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