"Há uma coisa que quase não tem explicação nos seres humanos que é o chamamento da terra. Foi aí que eu nasci e será aí onde estarei quando fizer a última viagem. Para todos os pampilhosenses quero deixar um abraço do tamanho do mundo." (Tony Carreira)

Por: António Barata Lopes


Quer se goste quer não, quer se concorde quer não, António Manuel Mateus Antunes, mais conhecido por Tony Carreira, é, e provavelmente será sempre, uma fonte inesgotável de auto-estima para as gentes das Serras da Pampilhosa.

Este autêntico embaixador da Pampilhosa da Serra, marcou indelevelmente o território. Podemos dizer que há um antes, e um depois de Tony Carreira. Pampilhosa da Serra só era conhecida por maus motivos, principalmente pelo flagelo dos incêndios. Tony, teve a virtude de colocar o território Pampilhosense nas bocas do mundo, desta vez por bons motivos. Os pampilhosenses, e mesmo Portugal, deveriam sempre sentir-se gratos por tal facto.

Com cerca de 25 álbuns gravados em estúdio, e meia dúzia de álbuns gravados ao vivo, tornou-se o campeão da popularidade em Portugal, entre gentes das mais variadas gerações.

Desde "Meu Herói Pequeno", até " Le Coeur Des Femmes", muita coisa mudou, milhões de fãs, por todo o mundo, passaram a seguir a cada instante, a inspiração de um homem que um dia nos deu "Sonhos de Menino", quando " Ai Destino, Ai Destino", ainda aquecia o coração de muita gente.

Mas, e para pena dos inúmeros fãs, hoje não queremos falar com o artista, queremos falar com o homem que dá corpo a esta "gema" das Serras da Pampilhosa.



SerrasOnline - Comecemos pelo mais simples. Sabemo-lo simpático e acolhedor, mas não sabemos, o que o mais o faz sorrir?

Tony Carreira – O Humor apurado, mas também gosto muito do humor popular do tipo da revista á portuguesa, do nosso comediante Fernando Mendes que me faz rir. Embora a imagem que passe para o publico em geral, não seja essa a que se referem, não sei muito bem porquê, no fundo continuo a ser uma criança. Continuo a ter alguma timidez em frente às câmaras, será porventura por causa dessa timidez que passo uma imagem que não corresponde à realidade. Há de facto muita coisa que me faz sorrir, como já disse, desde o humor apurado ao popular.

SO - Esquecendo o levantar cedo, pois tal é publico, o que o deixa menos bem disposto?

TC – Isso foi no passado, já mudei. Durante toda a vida sempre me deitei tarde, portanto também me levantava tarde. Hoje em dia estranhamente já me deito cedo e levanto-me cedo, é capaz de ser uma coisa de idosos. O que me deixa maldisposto são alguns critérios de vida, a falta de respeito mexe muito comigo, a falta de respeito pelos outros, deixa-me mesmo muito maldisposto.

SO - Afastado dos palcos, o que esperamos por pouco tempo, certamente continua a ser abordado por fãs de todas as idades. Quais as questões que mais frequentemente lhe são colocadas?

TC – Há várias. Pedem para falar sobre o meu percurso e história de vida, perguntam muitas vezes de onde vem a minha fonte de inspiração. Pergunta à qual tenho muita dificuldade em responder pois sinceramente não sei.

SO - Pedem-lhe muitas vezes que volte?

TC – Isso pedem, o que me deixa muito feliz. As pessoas são muito queridas comigo, sinto-me extremamente bem acarinhado pelo povo português, são extremamente generosos comigo. Mesmo pessoas que têm um gosto musical diverso daquele que apresento, têm esse direito, mas mesmo essas pessoas me abordam dizendo que gostam do que faço, da maneira como estou na vida. Perguntam-me quando volto, o que me deixa feliz, toda a gente gosta de ser acarinhada. Acabo por ser uma pessoa privilegiada.

SO - Teme a pandemia, e é escrupuloso na observação das regras de distanciamento social?

TC – Sou, tenho bastantes cuidados, posso não as cumprir com todo o rigor, pois nem sempre é fácil. No entanto levo a situação muito a sério por motivos muito válidos. Os meus pais têm já uma idade avançada e como faço questão de os visitar, todos os dias, sempre que me encontro em Lisboa, tento sempre seguir as recomendações das autoridades de saúde, de forma a não os contagiar. Desde o começo da pandemia que não almoço com eles, mas estou desejoso e esperançoso que o possa fazer nos tempos mais próximos, assim que seja seguro. A minha maior preocupação é não infectar ninguém, mais ainda que ser infectado.

SO - Sabemos, porque já assistimos inúmeras vezes, que o seu contacto com admiradores e admiradoras é de enorme proximidade. Nestes tempos de Covid-19, como gere tal proximidade e ao mesmo tempo zela pela sua segurança?

TC – Tento gerir da forma mais segura, mesmo quando ando pela rua e apesar da máscara sou reconhecido, não deixo de tirar uma foto, não recuso uma foto, mas peço às pessoas para se colocarem na minha frente a dois metros. Temos evidentemente de levar a situação a sério, porque é sério, mas também não podemos chegar ao extremo de sermos fundamentalistas e cair em exageros ou paranoias. Não me enquadro nesse patamar, mas tenho cuidados.

SO - A pandemia mudou tudo no mundo, certamente as Serras da Pampilhosa não estão imunes. Logo não será difícil prever tempos complicados para o Interior das Serras. Na sua opinião, o que podemos todos fazer para ajudar no problema que se avizinha?

TC – Locais como a Pampilhosa minimamente estão bem. É muito mais fácil gerir esta situação num meio pequeno como é a Pampilhosa que numa grande cidade. Pode ser um problema grande no caso das pessoas que se deslocam das grandes urbes como Lisboa, Porto, França, Suíça, etc. para as populações locais. Vamos ter de aprender a lidar com o vírus, porque, espero estar enganado será uma situação que não vai desaparecer da noite para o dia. As pessoas que se deslocam dos grandes centros tem de ter a consciência que têm de proteger as pessoas que lá vivem, que ainda por cima, constituem devido a sua idade um grupo de risco

SO - Mudando um pouco o rumo à nossa conversa. Neste nosso Portugal,  por vezes tão ingrato para com os seus filhos, que os levam a emigrar, como foi o seu caso e o de tantos outros. Sentiu alguma vez esta ingratidão?

TC – Faz parte do meu ADN não guardar rancor a nada nem a ninguém, mesmo aqueles, e todos temos um ou mais na nossa vida que nos prejudicaram. Sempre fui uma pessoa  super positiva, faz parte de mim. Mesmo quando cheguei a França ainda criança com 10 anos e não falando a língua, foi uma dificuldade enorme, mas tornou-me mais forte, são as dificuldades que nos tornam mais fortes. Quando quis fazer o caminho inverso, houve algumas pequenas fricções, mas devido à minha forma de estar na vida, mesmo aquelas “bocas” que por vezes existem para os emigrantes, sinceramente nunca liguei. Estava mais focado em mim e nos meus objectivos. Sei que existem pessoas que não gostam de mim, mesmo fazendo o meu melhor e cantando uma canção daquelas que são um êxito, vão sempre criticar-me. Faz parte da vida. As coisas negativas sempre as apaguei com relativa facilidade, tenho uma forma de estar na vida muito positiva

SONo entanto, principalmente em França, tem uma multidão de fãs impressionante. Nesta hora difícil não quer deixar uma mensagem para todos quantos em França, ou nos outros países do mundo, lutam por uma vida melhor?

TC – A mensagem que quero deixar para a diáspora, não só para França, embora França me diga muito, foi onde comecei a cantar, onde nasceram os meus filhos, onde tenho muitos amigos, onde vivi durante 27 anos, nunca deixará de haver uma relação umbilical com aquele país.

Há uma coisa que me deixa orgulhoso. Os portugueses quando vivem fora, mesmo os miúdos que já lá nasceram e nunca vão voltar, têm um orgulho na bandeira nacional. Só quem viveu fora é que compreende este sentimento, a forma como vivem os nomes dos portugueses mais conhecidos, casos do Cristiano Ronaldo, do José Mourinho, Da Mariza, do Tony e muitos outros. Acho esse sentimento fantástico de quem vive fora de Portugal e continua a amar incondicionalmente o seu país

SO - O que pode através de nós dizer aos pampilhosenses, principalmente aos que habitam o território nesta hora complicada?

TC – Em casa própria sou suspeito. As gentes da Pampilhosa têm o mesmo tipo de união que os da diáspora. Pondo de lado a cor política e focando-nos apenas na pessoa e no autarca, tenho um grande carinho pelo José Brito que tem feito um trabalho fantástico que é o de conseguir unir os pampilhosenses que não vivem na Pampilhosa. Sempre que se desloca a Lisboa, procura marcar almoços ou outros eventos para estar com eles. Isto faz com que o amor que demonstra á terra contagie os demais e quase os “obrigue” a dizer presente quando é necessário mostrar a fibra e a massa de que são feitos. Há uma coisa que quase não tem explicação nos seres humanos que é o chamamento da terra. Foi aí que eu nasci e será aí onde estarei quando fizer a última viagem. Para todos os pampilhosenses quero deixar um abraço do tamanho do mundo.

 

 

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