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Empreendedor, inovador, e algumas vezes pioneiro. José Antunes, empresário pampilhosense na área de eventos musicais, com cartas dadas em tantos palcos por essa Europa fora, é hoje o alvo da nossa curiosidade.
O seu espírito jovial, leva-o a admitir "não ter jeito nenhum para a música", preferindo áreas onde de facto o seu enorme talento marcam a diferença.
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Serras Online - Admitiu recentemente não ter grande jeito para a música ao lembrar o grupo de que fez parte "Irmãos 5". O que o leva a pensar dessa forma?
José Antunes – Continuo a dizer que não sou músico, toquei na banda de 81 a 88, mas desde essa altura nunca mais toquei na viola baixo. Talvez porque gosto mais da parte de trás do palco, do local que não se vê, mas que sem ele as coisas não acontecem.
Serras Online - Em algum momento se arrependeu de ter abandonado o grupo?
José Antunes – Não, e aliás estou muito contente por ter tomado essa decisão porque foi a partir daí que criei a DYAM e que me permitiu realizar este percurso.
Serras Online - A fundação da Dyam, foi certamente um passo de gigante naquela época. Pode contar-nos como tudo aconteceu?
José Antunes – Foi uma vontade de ser independente, e na altura quando estava em palco com o grupo e via as salas cheias sonhava estar do outro lado enquanto produtor, efetivamente que nessa altura não tinha a mínima noção do que seria a responsabilidade que isso impunha seja ela administrativa ou financeira.
Serras Online - A empresa em França, pelo que pudemos apurar, foi pioneira em algumas atividades. Que atividades foram essas, não esquecendo o primeiro espetáculo na mais antiga sala de espetáculos de Paris?
José Antunes – Efetivamente a DYAM foi a primeira empresa criada em França para trabalhar com os artistas Portugueses , tendo realizado o meu primeiro concerto a serio em 1991, e posso dizer que este ficou me marcado porque alem de ser o primeiro, com muito poucos bilhetes vendidos, financeiramente foi um desastre, o que poderia levar-me a não fazer mais nada, mas antes pelo contrario levou-me a realizar uma analise do que foi e como foi feito para melhorar nos erros cometidos. E na realização desse trabalho levou-nos a que em 2000 fossemos a primeira empresa Portuguesa, embora sediada em França, a realizar um concerto na sala mais antiga e emblemática de Paris, e talvez uma das mais emblemáticas do mundo que é o Olympia, onde ate agora já realizei 25 concertos ao longo destes anos todos, e tenho mais dois programados, que alias eram para se ter realizado em Abril e Maio se não tivesse surgido esta pandemia
Serras Online - Sabemos que já proporcionou aos imigrantes portugueses por essa Europa fora muitos artistas. Pode falar de alguns?
José Antunes - Ao longo destes anos todos posso-me orgulhar de já ter levado a nossa música praticamente em todo o mundo, embora com mais realizações na Europa, por uma razão de distância e também porque a concentração de Portugueses é mais importante.
Quantos aos artistas posso orgulhar-me de poder dizer que trabalhei com:
Carlos do Carmo, Mariza, Ana Moura,Tony Carreira, Dulce Pontes, Pedro Abrunhosa, Antonio Zambujo, Mickael Carreira, David Carreira, Xutos, Nelson Ritchie, Carminho, Marco Paulo, Santa Maria, José Cid, Jose Malhoa e muitos mais… e em todas as referências de estilo musical.
Só tenho pena de não ter trabalhado com a diva Amália, e foi por isso que em 2016 criei um musical que se chama cantar Amália e que a homenageia, tendo já percorrido, França, (Olympia entre outras salas), Brasil, Canada, USA, Luxemburgo, etc…
Serras Online - Só para nós que ninguém nos ouve. Qual o artista português que já levou a França ou ao Luxemburgo que mais aceitação teve entre os imigrantes?
José Antunes – Até meados de 2000 aproximadamente, a distância entre Portugal e os Portugueses no estrangeiro criava uma saudade tão grande que qualquer espetáculo português esgotava. Desde a implementação das redes sociais e das viagens de avião mais acessíveis, a saudade continua presente, mas tornou o público mais exigente quanto aos espetáculos que são apresentados pelos artistas Portugueses. Posso dizer que entre-outros as referências nacionais do Fado são bastante bem aceites pelo público.
Serras Online - Sabemos que por detrás do seu irmão sempre esteve a pessoa que poucos falam e sempre escapou às luzes da ribalta. Conte-nos como começou o seu envolvimento neste projeto?
José Antunes – Como muita gente sabe a inscrição no festival da RTP em 1988 fui eu que a fiz, e foi com naturalidade e porque sempre acreditei no seu potencial, que me juntei a ele e o acompanhei a realizar este percurso, embora desde 2009 só o acompanhe na área internacional, mas Olympia ate hoje, Coliseus, Pavilhão Atlântico ate 2009, foram da minha responsabilidade.
Serras Online - Certamente o José Antunes terá muito para nos contar, e certamente nós gostaríamos muito de conhecer a outra vertente deste assunto. Têm com certeza episódios únicos e quase inverosímeis que queira partilhar connosco?
José Antunes – Efetivamente tenho muitas memorias, porque com os 60 anos que tenho e os 40 anos musicais que irei comemorar em 2021, passaram-se muitas coisas. Talvez quando me reformar pensarei em escrever as minhas memorias, mas por enquanto prefiro continuar a levar o sorriso e as lágrimas aos nossos portugueses que vivem fora de Portugal, e muitos deles que passam vários anos sem vir até cá, em particular no continente americano (norte e sul)
Serras Online – O público em geral não imagina o que é montar e gerir uma máquina desta dimensão. Explique-nos um pouco daquilo que o público desconhece, que torna possível montar espetáculos grandiosos como por exemplo os da Altice Arena?
José Antunes – É muito difícil explicar concretamente o que é produzir um evento desta dimensão, pois para além dos aspetos técnicos, o principal é preparar tudo durante dias e meses para que naquele intervalo de horas tudo corra perfeitamente. Todos os pormenores que fazem com que o espetáculo seja inesquecível são pensados e repensados para que exista um momento de comunhão entre os artistas e o público, e que nenhum dos lados perceba o esforço necessário para chegar a esta comunhão. Essa é a nossa função.
Serras Online – Por vezes trabalhar em família, apesar dos laços que nos ligam, é ainda mais difícil. É fácil trabalhar com os familiares?
José Antunes – Quer queiramos ou não, no trabalho em família nunca conseguimos separar o fato de sermos família e o trabalho, mas justamente porque somos família também acabamos por perdoar e aceitar algumas coisas que não aceitaríamos de outros.
Serras Online – Por último, se nos pode e quer contar, projectos para o futuro?
José Antunes - Continuar a realizar concertos e em particular permitir aos nossos compatriotas de poderem sorrir, cantar e lembrar Portugal durante o concerto que eles estão a ver. Porque esses momentos são muito importantes e eu que vivi 34 anos em França e ainda hoje percorro o mundo com a minha profissão sei o quanto é importante viver, comer, beber Portugal no nosso dia a dia, porque essa ligação quotidiana é o que permite aguentar a saudade de estar longe de casa.
DYAM foi fundada em 1989 por José Antunes, com o objectivo de promover a música e os Artistas Portugueses junto da Comunidade Lusófona. Sendo a primeira empresa, em França, autorizada pelos Ministerios do Trabalho e Cultura, no desenvolvimento desta actividade. Nos seus primeiros anos a “DYAM PRODUCTIONS” foi responsável pelas edições discográficas do grupo Irmãos 5, assim como de algumas colectâneas de Música Portuguesa. Gradualmente, a “DYAM PRODUCTIONS” foi-se impondo como uma estrutura incontornável, perante as diversas Associações e Clubes Portugueses, que nasciam por toda a Europa, as quais faziam apelo aos seus serviços, não só para a contratação dos artistas, mas também, no apoio à organização e promoção de eventos. |
21.05.2020

