
Nestes tempos de pandemia, em que de repente, tivemos de mudar radicalmente a nossa vida, devido a um inimigo invisível. Condicionou uns, matou outros. Com certeza depois desta crise nunca mais seremos os mesmos. Mesmo o mundo sofrerá decerto modificações e nunca mais será o mesmo.
Pensamos ser muito oportuno pedir mais uma vez a colaboração deste pampilhosense que sempre se mostrou disposto a colaborar, sempre que solicitado, e a quem nos liga uma amizade recente, desinteressada e um desejo comum de servir o regionalismo e se possível deixar um mundo melhor aos nossos filhos.
Trata-se de José Augusto Barata, distinto médico, também escritor por hobbie, que por diversas vezes teve a amabilidade de conceder entrevistas ao jornal institucional da Casa de Concelho de Pampilhosa da Serra.
Desta vez noutro projecto distinto, noutro formato, mas que tem o mesmo lema, informar, unir e servir a comunidade pampilhosense.
Serras Online – Neste tempo conturbado, o que tem a dizer sobre o flagelo que se abateu sobre o mundo em geral e em particular sobre a nossa comunidade?
Os coronavírus constituem um grupo de vírus que podem causar infeção no homem, bem como em alguns mamíferos selvagens e também nas aves. São atualmente conhecidos oito estirpes de coronavírus suscetíveis de causar doença humana, com manifestações clínicas principalmente a nível do aparelho respiratório, habitualmente sob a forma de uma constipação, ou mais raramente de pneumonia.
Dos coronavírus que podem provocar infeção na espécie humana, o SARS-CoV, o MERS-CoV e o SARS-CoV-2 são transmitidos ao homem a partir de animais que funcionam como reservatórios ou hospedeiros desse vírus. Em 2003 e 2012 registaram-se epidemias de pequena dimensão e rapidamente contidas, causadas respetivamente por SARS-CoV e MERS-CoV.
O novo coronavírus, o SARS-CoV-2, que originou a atual pandemia, conhecida por COVID-19, foi identificado pela primeira vez em dezembro de 2019, na China e era desconhecido como infetante da espécie humana. O animal hospedeiro ainda não está identificado de forma inequívoca, sendo as hipóteses mais prováveis o morcego ou o pangolim.
A infeção assumiu rapidamente um percurso epidémico e em poucos meses transformou-se numa pandemia com extensão aos cinco continentes.
Felizmente que cerca de 80% dos casos de COVID-19 apresentam doença ligeira, muitas vezes sem necessidade de internamento, e em apenas 15% dos infetados o quadro clínico assume uma expressão clínica mais séria, sob a forma de pneumonia de gravidade variável. As formas graves com necessidade de internamento em cuidados intensivos rondam os 5% .
A maioria dos óbitos ocorrem nos grupos etários mais avançados ou em pessoas portadoras de doenças crónicas.
As assimetrias de incidência e mortalidade registadas nas diferente regiões do globo não têm explicação imediata, mas terão que ver provavelmente com variações de prevalência de grupos etários mais suscetíveis, ou com a eficácia da implementação e cumprimento das medidas preventivas.
Por enquanto a não é possível confirmar se as pessoas infetadas com o SARS-CoV-2 desenvolvem imunidade protetora, ou se poderão vir a sofrer reinfeções posteriores.
Também ainda não é possível garantir uma vacina eficaz, importante para prevenir muito prováveis reinvestidas do vírus cuja atividade controlamos mas que não conseguimos erradicar.
Tratando-se de um vírus novo são anda necessários estudos mais detalhados que permitam perceber a sua dinâmica biológica, o seu comportamento futuro, e o risco de novas epidemias.
A pandemia de COVID-19 marcará, certamente, o nosso tempo, direta e indiretamente, nos tempos mais próximos. Os impactos sociais e económicos conhece-los-emos em pleno, a curto médio - prazo. E serão certamente significativos. E fica uma dúvida angustiante: A sociedade voltará a ser a mesma?
SO – Como é, estar na linha da frente, a combater algo que não se vê e do qual se tem um desconhecimento grande?
É necessária uma atitude muito firme e muito abnegada, felizmente comum no pessoal da área da saúde, principalmente perante situações críticas, como são as epidemias. A nível hospitalar é imprescindível delinear uma boa estratégia de trabalho, definir espaços e circuitos de abordagem dos doentes, de acordo com o grau de gravidade de cada um , e alocar o pessoal adequado a cada área. As medidas de proteção individual são fundamentais na segurança do pessoal de saúde, devendo-se ter em conta que o uso prolongado do equipamento de proteção individual se pode tornar muito desconfortável . Os turnos de trabalho devem ser, portanto, equacionados em função destas dificuldades. É ainda necessária uma monitorização permanente da evolução do número de casos, de modo a poder alocar os recursos adequados a cada área de intervenção. Tem de haver da parte das chefias, uma atitude de atenção e apoio permanente a quem está diretamente no terreno, no plano técnico, humano e psicológico, de modo a minimizar o impacto de um ambiente de trabalho stressante e que facilmente leva à exaustão.
Felizmente que no nosso país houve a perceção atempada da gravidade da situação, o que permitiu uma organização precoce dos serviços de saúde e a implementação das adequadas medidas de ataque à epidemia. Esta atitude refletiiu-se claramente no impacto da pandemia em Portugal, com níveis de mortalidade francamente inferiores aos verificados noutras geografias.
SO – Que conselhos quer dirigir á comunidade de forma a ajudá-los a defender deste inimigo traiçoeiro e implacável?
Apesar de estarmos atualmente numa fase de aparente estabilização da epidemia, não é recomendável aligeirar as medidas de prevenção preconizadas pelas autoridades sanitárias. As recomendações preventivas que devem continuar a ser respeitadas, têm de estar permanentemente presentes na mente de cada um de nós:
Ficar em casa, saindo apenas por razões de caráter inadiável
Manter uma distância de segurança entre pessoas de pelo menos 1 metro, principalmente se entre os presentes alguém apresentar qualquer manifestação de infeção do trato respiratório.
Manter uma higiene rigorosa das mãos, com lavagens frequentes.
Cobrir a boca e o nariz com a curva do braço ou com um lenço, durante o ato de tossir ou espirrar.
Evitar tocar com os dedos na face, nos olhos ou na boca.
SO – Existe uma opinião diversa e por vezes controversa acerca do uso de máscaras de proteção que pode contribuir para a legitima duvida do seu uso. Ainda recentemente ouvimos um conceituado epidemiologista o Dr. Pinto da Costa defendendo o seu uso só, para quem está ou pensa estar contaminado. O que se apraz dizer-nos?
Não há evidência clara de que o uso de máscara por pessoas não infetadas, quando circulam no espaço público, tenha impacto positivo na prevenção da infeção por Coronavirus. As recomendações da Organização Mundial de Saúde emanadas a 6 de abril de 2020 são claras: “ O uso de máscaras de proteção deve ser reservado a profissionais de saúde em contacto com doentes. O uso de máscaras na comunidade, por pessoas saudáveis, pode gerar falsas noções de segurança e negligenciar medidas de proteção complementares , como a higiene das mãos ou o distanciamento social “.
A indicação formal das autoridades de saúde é o confinamento e o isolamento social, devendo as saídas de casa apenas ocorrer em situações de caráter excecional. E nesses casos, a medida de proteção indicada consiste em manter uma distância de segurança em relação às restantes pessoas, e adotar os procedimentos de higiene respiratória preconizados. A máscara facial não tem portanto cabimento formal como medida de proteção individual , muito menos alguns modelos que começam a surgir um pouco por todo o lado, mais em contexto de moda do que prevenção. Uma máscara para proporcionar uma proteção eficaz deve obedecer a determinados requisitos técnicos, em termos de confeção e dimensões, que provavelmente não são respeitados por aqueles modelos.
SO – Ainda recentemente ouvimos com estupefação o Presidente da maior superpotência equacionar a injeção de desinfectantes em pacientes infectados. Não querendo gracejar com o assunto, que é sério, digamos que resolvia, matava o vírus e o paciente. Tem algum comentário ou é daquelas coisas que nem vale a pena comentar?
Trata-se de atitude totalmente absurda, incompreensível e irresponsável , vinda de de uma figura política de credibilidade mais que duvidosa. É tema para ignorar .
SO – Sabemos que vão ser aliviadas as medidas de contenção. Na sua opinião esta medida é extemporânea, apesar de termos a consciência do desastre económico que se avizinha?
Apesar da estabilização evolutiva da pandemia de Coronavirus, a mortalidade não baixou ainda para zero. O levantamento das restrições deve ser cauteloso e ponderado, não sendo recomendável a suspensão das medidas de contenção de forma avulsa e universal, sob o risco de recrudescimento da epidemia. Terão de ser criteriosamente avaliados os espaços e serviços que poderão retomar progressivamente a atividade, devendo apenas reiniciar funções os que permitam garantir o distanciamento seguro entre pessoas. No setor comercial será relativamente fácil encontrar situações de retoma segura de atividade, mas noutras áreas, como o desporto e os espetáculos em geral será um processo mais complexo. O ensino será também uma área que exigirá alguma ponderação até que possa ser retomada a normalidade.

SO – Queremos agradecer a sua disponibilidade. Que conselhos deixa aos Pampilhosenses acerca desta pandemia para o futuro?
Os nossos conterrâneos que vivem no concelho de Pampilhosa da Serra têm, na sua maioria, o isolamento social facilitado. E não pelas melhores razões: O despovoamento condiciona uma densidade populacional de 11,3 habitantes /Km2, o que nalgumas aldeias significa distancias significativas entre casas habitadas. Pelo facto de se tratar de uma população maioritariamente idosa, e consequentemente de maior risco, recomenda-se o cumprimento rigoroso das medidas de prevenção preconizadas.
A mesma recomendação é extensível à grande família Pampilhosa dispersa pelo país e pelo mundo, à qual desejo que ultrapasse da melhor forma este momento difícil para todos nós.